quarta-feira, 18 de julho de 2007


Antônio Gedeão

Adeus, Lisboa




Vou-me até à Outra Banda
no barquinho da carreira.
Faz que anda mas não anda;
parece de brincadeira.
Planta-se o homem no leme.
Tudo ginga, range e treme.
Bufa o vapor na caldeira.
Um menino solta um grito;
assustou-se com o apito
do barquinho da carreira.
Todo ancho, tremelica
como um boneco de corda.
Nem sei se vai ou se fica.
Só se vê que tremelica
e oscila de borda a borda.

Chapas de sol, coruscantes
como lâminas de espadas,
fendem as águas rolantes
esparrinhando flamejantes
lantejoulas nacaradas.
Sob o dourado chuveiro,
o barquinho terno e mole,
vai-se afastando, ronceiro,
na peugada do Sol.


A cada volta das pás
moendo as águas vizinhas,
nos remoinhos que faz,
nos salpicos que me traz
e me enchem de camarinhas,
há fagulhas rutilantes,
esquírolas de marcassites,
polimentos de pirites,
clivagens de diamantes,


Numa hipnose coletiva,
como um friso de embruxados,
ao longe os olhos cravados
em transe de expectativa,
todos juntos, na amurada,
numa sonolência de ópio,
vemos, na tarde pasmada,
Lisboa televisada
num vasto cinemascópio.
O sol e a água conspiram
num conluio de beleza,
de elixires que se evadiram
de feiticeira represa.
Fulva, no céu incendido,
em compostura de pose,
a cidade é colorido
cenário de apoteose.
Há lencinhos agitados
nos olhos de todos nós,
engulhos de namorados,
embargamentos na voz.
Nesta quermesse do ar,
neste festival de tons,
quem se atreve a acreditar
que os homens não sejam bons?


Adeus, adeus, ribeirinha
cidade dos calafates,
rosicler de água-marinha,
pedra de muitos quilates.
Iça as velas, marinheiro,
com destino a Calecu.
Oh que ventinho rasteiro!
Que mar tão cheio e tão nu!
Ó da gávea! Põe-te alerta!
Tem tento nos areais.
Cá vou eu à descoberta
das índias Orientais.
Não tenho medo de nada,
receio de coisa nenhuma.


A vida é leve e arrendada
como esta réstea de espuma.
Toda a gente é séria e é boa!
Não existem homens maus!
Adeus, Tejo! Adeus Lisboa!
Adeus, Ribeira das Naus!
Adeus! Adeus! Adeus! Adeus!

* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *

domingo, 15 de julho de 2007




Poema Árabe (encontrei no Blog da Cleopatra )


O meu filho coloca a sua caixa de pintura à minha frente
E pede-me que lhe desenhe um pássaro.
Mergulho o pincel na cor cinzenta
E traço um quadrado com fechaduras e grades.
Os seus olhos enchem-se de surpresa: "...
Mas isto é uma prisão, pai,
Não sabes desenhar um pássaro?
E eu digo-lhe: "Filho, perdoa-me.
Esqueci-me da forma dos pássaros.
O meu filho coloca o livro de desenhos à minha frente
E pede-me que desenhe uma espiga de trigo.
Pego num lápis
E desenho uma arma.
O meu filho desdenha da minha ignorância, perguntando,
"Pai, não sabes a diferença entre uma espiga de trigo e uma arma?
" Eu digo-lhe:
"Filho, uma vez usei a forma da espiga de trigo a forma do pão a forma da rosa
Mas nestes tempos duros as árvores da floresta
juntaram-se aos homens da milícia e a rosa veste uniformes escuros
Neste tempo de espigas de trigo armadas de pássaros
armados de cultura armada
e de religião armada
não se pode comprar pão sem encontrar uma arma no interior
não se pode colher uma rosa do campo sem que os seus espinhos nos arranhem o rosto
não se pode comprar um livro que não vá explodir entre os nossos dedos.
" O meu filho senta-se à beira da minha cama e pede-me que recite um poema
Uma lágrima cai dos meus olhos para a almofada.
O meu filho apanha-a, surpreendido, dizendo:
"Mas esta é uma lágrima, pai, não é um poema!"
E eu digo-lhe:
"Quando cresceres, meu filho, e aprenderes o 'diwan' da poesia árabe
descobrirás que palavra e lágrima são gémeas
e que o poema árabe não é mais do que uma lágrima chorada por dedos que escrevem.
" O meu filho pega nos seus pincéis, a caixa de pinturas à minha frente
e pede-me que lhe desenhe uma pátria.
O pincel treme nas minhas mãos e eu afundo-me, chorando.
-
Nizzar Qabbani

terça-feira, 10 de julho de 2007

Explosões na Mesquita Vermelha
Forças de segurança paquistanesas negam assalto à mesquita. Duas violentas explosões e tiros de armas automáticas foram ouvidos ao princípio da tarde junto à Mesquita Vermelha, em Islamabad. Veículos blindados e soldados dirigiram-se para o local, mas as forças de segurança paquistanesas desmentem que esteja a acontecer um assalto à mesquita onde há três dias estão entrincheirados várias centenas de estudantes radicais islâmicos.
SIC

domingo, 8 de julho de 2007


Alcácer do Sal é uma antiga cidade alentejana.

Durante o domínio romano, em Salacia, os seus habitantes tinham o privilégio de cidadãos de Roma.

A sua importância manteve-se durante a dominação visigótica e árabe, de tal modo que o castelo foi o mais forte da Península Ibérica nesse tempo, defendido por trinta torres de pedra com vinte e cinco metros de altura cada uma e outra ao centro do recinto com vinte e sete metros de alto por vinte e seis de largo.
Afonso Henriques só à terceira tentativa conseguiu penetrar nas suas muralhas, que perderia depois a favor do miramolim de Marrocos.

D. Afonso II, que veio a conquistar a cidade definitivamente, pôs-lhe cerco por dois meses e meio, em 1217.



"Desde este tempo, diz-se que nas noites de luar de Agosto se sentem no ar sumidos rumores, quase lamentos ou gemidos, vindos dos restos da velha muralha. Diz quem sabe que são, afinal, os cânticos de amor que a linda mourinha Almira cantava a D. Gonçalo. Conta a lenda que, quando Afonso II conseguiu penetrar em Alcácer, os Mouros fugiram apavorados ante a sanha dos cristãos. Naquela precipitação, uns atiraram-se das torres, outros fugiram de roldão pelas portas escancaradas, e alguns utilizaram antigos subterrâneos só deles conhecidos. Na debandada geral, porém, uma menina ficou esquecida, ou, quem sabe, seus pais terão perecido. Mal falava, ainda. Sabia que se chamava Almira, mas pouco mais conseguia dizer. Às perguntas que lhe faziam, esbugalhava os olhitos negros, sem compreender por que razão não estava ali a mãe ou a ama. E, de repente, virava-se de costas para aquela gente que a interrogava, escondia a cara nas mãos e soluçava baixinho, sacudindo levemente os cabelos negros de noite como um manto de veludo.
Almira foi recolhida no castelo e criada como cristã. Parecia ter esquecido a sua ascendência e provavelmente esqueceu-a porque ninguém lha lembrava. Foi crescendo rodeada de amor e, como era dotada para a música, aprendeu alaúde, que tocava como mais ninguém. O seu espírito irrequieto e sonhador pregou-lhe a partida de a fazer poetisa. E assim, com o alaúde e a sua poesia, rivalizava com qualquer trovador que pousasse no castelo, tirando sempre a vantagem do esquisito sentir que a tornava diferente. Havia nela uma tristeza ausente, feita de saudades do que não lembrava mas amava. E essa tristeza ausente fazia do seu corpo, espiga dourada, um desejo doloroso de quantos cavaleiros por ali passassem. E Almira deixava-os ir e vir. Observava os seus feitos guerreiros com um sorriso gentil. Honrava-os nos seus poemas, mas continuava sentada no seu trono invisível, sorrindo um sorriso longínquo, intocável, sempre. Até que um dia D. Gonçalo chegou a Alcácer do Sal. Como qualquer outro cavaleiro, chegou em busca de honra e serviço. E como qualquer outro, também, veio para conhecer Almira e o seu sorriso. D. Gonçalo era assim, nem bonito nem feio. Tinha olhos, uns olhos tais que Almira esqueceu-se a sorrir. Desapareceu a dama dos salões. Nunca mais voltou a sorrir a ninguém do divã onde se sentava cantando tristezas ausentes. Almira estava agora presente e uma dor estranha instalara-se como uma rosa desabrochando eternamente no seu corpo, na sua alma, em si inteira. Encostada ao parapeito da sua torre, Almira soltava no ar gritos de amor em cânticos melodiosos:


Pois é mais vosso que meu,

Senhor, o meu coração
Pois vossos cativos são
Meus olhos, lembro-vos eu

Lembro-vos minha tristeza,
Que jamais nunca me deixa,
Lembro-vos com quanta queixa
Se queixa minha firmeza.

Lembro-vos que não é meu
O meu triste coração
Pois tendes tanta razão,
Meus olhos, lembro-vos eu...


D. Gonçalo ouvia, mas não se atrevia. Bem sabia D. Gonçalo que aqueles "meus olhos"eram seus. Até que, uma noite, D. Gonçalo ouviu e atreveu-se. Almira tocava alaúde baixinho, quase em surdina, como um suspiro interior. O cavaleiro, encostado às ameias do terraço da torre, ergueu timidamente a voz e os olhos, e cantou:


Mais digna de ser servida

Que senhora deste mundo,

Vós sois o meu deus segundo

Vós sois meu bem desta vida.

Vós sois aquela que amo


Por vosso merecimento,

Com tanto contentamento

Que por vós a mim desamo.


A vós só é mais devida

Lealdade neste mundo

Pois sois o meu deus segundo

E meu prazer desta vida.


Almira ouviu. Sentiu a vida fugir-lhe por um instante sem tempo. Depois, quando conseguiu voltar a si, endireitou seu corpo de espiga, olhou o cavaleiro e, sussurrando como um vento que mal toca a copa das árvores, disse, apenas:


Oh!, meu senhor D. Gonçalo!


O resto não conta a lenda, mas diz quem sabe que em certas noites de luar de Agosto ouvem-se os sussurros dos dois amantes que eternamente se quiseram encantados nas muralhas da velha Salacia romana."